Priscila Armani – Jornalista

Cinema, cultura, mídia e variedades nas palavras livres de uma jornalista.

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Ver e enxergar (ou o último dia de CineBH)

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Hoje (04/11) terminou a Mostra CineBH e foi o único dia em que tive tempo de ir. Lamentei demais não ter ido na Segunda-feira ver a pré-estréia de “Feliz Natal“. O Selton Mello estava lá. Se eu soubesse, não teria perdido a oportunidade de entrevistá-lo!

Mas assisti Janela da Alma, documentário feito em 2001 e adorei. Nele, 19 personalidades e também pessoas comuns falam sobre suas percepções de mundo, tendo por fio condutor a visão. Temos o vereador de Belo Horizonte Arnaldo Godoy, que é cego e descreve o drama que foi perder a filha pequena no mar; temos Hermeto Pascoal e seus olhos que não param quietos e temos o diretor Win Wenders, que não consegue usar lentes de contato, por serem muito “abrangentes”.

Mas o que mais me tocou, mesmo, foi a cena final do filme e não se preocupem, que não estarei fazendo nenhuma grande revelação aqui. Podem ler tranquilos.

Nasce um bebezinho, de parto normal e cheio de sangue. Passam uma toalha nele, limpando-o. Ele chora. A câmera, então, focaliza os olhinhos dele. Eles acabaram de abrir. Ficam piscando. E experimentam a luz do mundo pela primeira vez. Uma metáfora muito bonita, que só entende quem vê o documentário.

Written by Priscila Armani

terça-feira, novembro 4, 2008 at 11:16 pm

Ralo fedido, filme bem feito

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Esse fim-de-semana tive o prazer de assistir “O Cheiro do Ralo“, filme brasileiro protagonizado por Selton Mello e baseado em livro de Lourenço Mutarelli.

O filme é uma viagem muito louca que, segundo o próprio autor, ele teve em cinco dias, durante um carnaval, em que não estava conseguindo entregar os trabalhos atrasados. Para quem não conhece, Mutarelli é um quadrinista paulista bastante talentoso e que já sofreu várias crises de síndrome do pânico. Como podemos vê-lo dizer com suas próprias palavras no DVD, o artista só se sente bem quando sabe onde fica a farmácia mais próxima. 

Podemos vê-lo atuando como o segurança que sempre usa vermelho nesse filme. Raras vezes vemos isso no cinema, um escritor que atua num filme que é baseado em sua própria obra. Em 90% dos casos, eles não estão “nem aí” ou estão “tão aí” que “descem a lenha” no filme ou em tudo relacionado a ele.

Mas o relacionamento do autor com o diretor Heitor Dhalia (que também fez o excelente Nina) e o ator Selton Mello é excelente e facilita muito as coisas. No Diário de Selton Mello, que compõe os Extras do DVD, vemos que a idéia de filmar a obra foi do próprio Selton e que o ator trabalhou muito para que o projeto fosse possível e ficasse fiel. Não li o livro ainda, mas parece ter funcionado. O resultado é, simplesmente, fantástico.

“O Cheiro do Ralo” conta a história de Lourenço, um rapaz que trabalha comprando todo o tipo de coisas e revendendo-as, ganhando muito dinheiro com isso. Na mente dele, o dinheiro lhe dá poder sobre as pessoas e ele acaba tratando tudo e todos como objetos, desde sua noiva (que ele não chama pelo nome, é apenas “noiva”) até a garçonete de uma lanchonete, pela qual ele não se apaixona, ele apenas fica louco pela bunda dela. Ou seja, de mulher ela passa a ser bunda na cabeça dele. Ele nem sabe qual é o nome da moça.

Além disso, ele fica com nojo e com fissura pelo cheiro do ralo de seu banheiro, que fede a… aquilo que você já sabe. Ele tenta se livrar do cheiro, até chega a cimentar o ralo, mas acaba se tornando “viciado” naquele odor imundo.

Surpreendente, envolvente e engraçado, o filme nos envolve e nos enoja, sendo uma obra prima de interpretação do Selton. Prestem atenção nesse cara. Se bobear, um dia ele nos traz um Oscar.

Written by Priscila Armani

segunda-feira, setembro 22, 2008 at 1:08 pm

“Os Desafinados”

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Leiam, abaixo, minha crítica sobre este filme, que está nos cinemas de todo o Brasil*.

Afinados sim, mas… talentosos não!

A Bossa Nova está fazendo 50 anos. Dentre outros eventos comemorativos, o filme “Os Desafinados” vem numa tentativa horrível mostrar a história de cinco músicos e um cineasta que fizeram parte desse contexto, enfrentaram os horrores da Ditadura e tudo aquilo que você já viu em novelas, seriados e outros programas televisivos sobre o tema.

A graça do filme está no personagem de Selton Melo, o cineasta Dico. Selton é um ator tão excepcional que consegue fazer qualquer personagem valer a pena. Ele acompanha os músicos, registrando tudo sempre com sua câmera. E transforma um personagem que poderia ser apenas apoio naquele que mais consegue impactar o espectador.

Surpreendentemente, Jair Oliveira, que nem ator é, também consegue transmitir sinceridade, até porque é o único da trupe que canta de verdade, sem playback.

O resto do elenco, uma porcaria. Rodrigo Santoro, como Joaquim, mostra que Hollywood pode ter estragado um ator que prometia muito. Neste filme ele é um protagonista que fala bem inglês e espanhol, mas nem de longe mostra a vitalidade que tinha em “Bicho de Sete Cabeças” ou até mesmo em “Carandiru”. Lágrimas falsas e atuação pobre.

E com duas protagonistas de dar dó. Alessandra Negrini conseguiu ser pior que nas novelas globais. Cláudia Abreu era apenas a “gostosa” do filme, sempre peladona e atuando como a amante loira. Quanto clichê.

Foi a primeira vez que vi as pessoas ligando o celular durante a projeção, para ver as horas, ansiosas por ir embora. Eu, particularmente, estava que não aguentava mais, doida pro filme acabar logo e curiosa para saber como um enredo que não saía do lugar iria evoluir num desfecho. A resposta: não evoluiu.

Foi a primeira vez que vi, também, as pessoas se levantando para ir embora, fulas da vida com o final, sem nem esperar o filme acabar direito. O filme conseguiu, inclusive, ter um dos piores finais da história do cinema brasileiro. Sério. Me deixa revoltada saber que a Ancine deixa de patrocinar bons roteiros e prioriza umas porcarias dessas.

*Este texto foi publicado originalmente no Opperaa.

Written by Priscila Armani

sexta-feira, agosto 29, 2008 at 10:38 pm