Priscila Armani – Jornalista

Cinema, cultura, mídia e variedades nas palavras livres de uma jornalista.

Posts Tagged ‘Mondo BHZ

Tokyo!

leave a comment »

Sim, este blog está às moscas e o motivo principal são os inúmeros afazeres pessoais. Nesses últimos três meses minha vida pessoal virou de pernas pro ar e ainda estou me adaptando, quem quiser saber porque, dá uma fuçada aqui.

Desde que fiz o curso do Pablo Villaça tenho feito pro Mondo BHZ uma série de críticas de cinema que, se ainda não forem totalmente “críticas”, pelo menos creio que estejam indo pelo caminho certo. Gostaria de compartilhar a mais recente delas com vocês (ainda tem alguém aí que me lê?) e quero um feedback. Dêem uma olhada abaixo. O texto refere-se a Tokyo!, filme dirigido por Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-Ho e também pode ser lido no site.

Três cidades em uma só são reveladas em Tôkyô!

Uma cidade, três perspectivas. Assim nos é colocada a proposta de Tôkyô!, filme cujo conteúdo dialogaria, de maneiras diversas, com a capital japonesa. Isso acontece, inevitavelmente. Mas o que Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-ho acabaram fazendo foi ir um pouco além disso.

O primeiro filme, dirigido por Gondry, foi batizado curiosamente de Interior Design e é uma adaptação da história título da HQ Cecil e Jordan em New York, lançada por Gabrielle Bell em 2008. Bell é uma cartunista americana pouco conhecida aqui no Brasil, mas seu estilo surrealista e melancólico dialoga bem com o trabalho do diretor francês, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original como co-roteirista do filme Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. No seu currículo, também estão os filmes Rebobine, Por Favor e A Natureza Quase Humana. Quando dirigia vídeo-clipes, seus trabalhos mais relevantes foram para os artistas Björk, Beck e The White Stripes.

Sem esse panorama que desenhei, ficaria impossível para qualquer espectador entender a história que se passa em Interior Design, onde a sensação de estranheza não nos deixa quando ele acaba. Hiroko (Ayako Fujitani) e Akira (Ryo Kase) são um jovem casal que chega em Tóquio com esperanças de melhorar de vida. Ele é um cineasta, que quer fazer seu filme dar certo. Ela é uma jovem sem vocação, que não sabe o que quer da vida. Eles são acolhidos temporariamente num apartamento pequeno pela amiga Akemi (Ayumi Ito), até que arrumem um lugar para viverem.

Gondry usa um longo plano sequência para nos contar da angústia da personagem em não saber qual é sua vocação. Outro momento interessante do filme é quando ela procura um apartamento e, em meio a sua busca, acha um quarto em estilo cubículo, que é focalizado do lado de fora pela câmera, junto com tantos outros milhares, mostrando como a precariedade de sua situação é compartilhada por tantos outros japoneses. Quando seu carro é guinchado e vemos muitos outros carros no pátio da Polícia, entendemos que esta é uma Tóquio em crise. Apesar de tudo, a solidariedade ainda é percebida em pequenas atitudes, especialmente a do ajudante do depósito.

Mas o diálogo com a cidade acaba não progredindo muito além disso. Inevitável pensar que o desfecho deste pequeno filme poderia ter sido outro, levando em consideração a proposta inicial. Não há como o espectador desavisado não se espantar com um tão gritante Deus ex machina. Mas isso é para quem não conhece a história da HQ. Para quem sabe como termina, está tudo muito bem e Gondry conseguiu ser bastante fiel ao trabalho de Bell.

Já em Merde, Leos Carax usa o caos para dialogar com a capital japonesa. O diretor do polêmico Pola X, que foi apenas ator nos últimos três longa-metragens, retorna para detrás das câmeras contando a história da criatura que se auto intitula Merde (Denis Lavant), um homem bizarro, que gosta de andar na rua agredindo as pessoas. No plano sequência inicial do filme, vemos a criatura arrancando plantas, espantando as pessoas, comendo dinheiro e até mesmo lambendo o braço de uma adolescente. Ele vive nos esgotos e lá encontra achados inusitados como, por exemplo, um tanque de guerra e armamentos. Interessante observar como, através desses achados, o cineasta dialoga de maneira sutil com a história recente japonesa, suas guerras e seus conflitos.

Outra parte curiosa da história é quando acontece um julgamento em três línguas e a tela se parte em três, às vezes quatro pedaços. Provavelmente intencionando dar destaque simultâneo aos três personagens que falam, o diretor se vale desse interessante ferramenta, que não é constante, mas vai se alterando de acordo com o desenrolar dos acontecimentos. Em certo ponto, só fica um quadrado em tela, que depois se desdobra em dois, três. A quantidade depende de como evolui a narrativa.

Ironicamente, esse segundo pedaço do filme é o mais caótico (há até mesmo um médico anão, o cúmulo do bizarro), mas chega a ter mais sentido, em sua própria lógica, do que a primeira história. E nisso incluo até mesmo o barulho da gaivota, que acompanha constantemente Merde quando sai do bueiro de esgoto.

Finalizando, temos o mais poético dos três filmes, Shaking Tokyo, dirigido por Bong Joon-ho, cujo principal sucesso de sua curta carreira foi O Hospedeiro, filme de 2006 que é estrelado por uma criatura no melhor estilo “monstro do Lago Ness”. Essa última história mostra o cotidiano de um hikikomori, um homem isolado em sua casa há 10 anos, que não tem contato com ninguém a não ser pelo telefone, quando pede comida; e pelas cartas do pai, que lhe manda dinheiro. Seu cotidiano é pontuado pelas refeições, por suas idas ao banheiro e por sua leitura diária. O homem estoca tudo que precisa: água, papel higiênico e até mesmo as caixas das pizzas que come aos sábados. Completamente isolado, ele sequer faz contato visual com os entregadores.

O diretor usa, com sutileza, a fotografia como um personagem a mais da história. Há um significativo contra-plongée do sol, para mostrar o sufocamento do homem pela vida social. Também há bastante sol dentro da casa, no qual o protagonista presta atenção e gosta de admirar. E, num momento dramático, a luz é estourada propositalmente, para nos mostrar o estranhamento, medo e incômodo que ele está sentindo. Ao final, nos dois primeiríssimos planos, novamente vem a luz do sol, dessa vez traduzindo, de maneira poética, um novo começo.

Merece ser citado também como se prestou atenção nos mínimos detalhes da concepção do protagonista. Sem que seja preciso dizer mais do que o necessário sobre seu isolamento, ele nos é apresentado através de significativas imagens como a casa completamente tomada pelo mato, o tênis com aranhas, a bicicleta enferrujada e, especialmente, as inúmeras pilhas de alimentos, garrafas d’água, livros e papéis higiênicos, que ocupam praticamente o interior da residência inteiro.

Pode-se considerar o filme Tôkyô!, assim como a própria cidade, uma pluralidade de perspectivas, de sentimentos. São três filmes em um, que se ligam entre si pela análise da metrópole através de seus habitantes. E, indo além do diálogo proposto, os cineastas conseguem construir, por meio de suas narrativas, um novo significado, partindo do particular para o universal. Cada uma das histórias começa nessa capital. E acabam indo muito além da imaginação humana.

Anúncios

Written by Priscila Armani

sexta-feira, dezembro 18, 2009 at 7:24 pm

Érika Machado, Godard, Humberto Mauro, curso do Pablo Villaça e Encontro de Twitteiros

leave a comment »

Muito movimentada foi e está sendo ainda essa semana. Um zilhão de coisas para fazer e ainda estou furando um pouquinho do meu tempo para escrever aqui. Mas não resisto. Me divirto um bocado com o blog.

Na quarta-feira (dia 11/11) foi lançamento do CD da Érika Machado no Teatro Alterosa, cantora que eu simplesmente amo! Entrevistei ela pro Mondo BHZ e ela foi super simples e simpática. Adoro gente assim, humilde. E o som dela é fan-tás-ti-co. Quem não conhece, precisa conhecer. Escutem um pouquinho do trabalho dela no site. Vocês vão se apaixonar! Ela e o som dela são muito cativantes.

Ainda na quarta, me matriculei no curso do Pablo Villaça. Lembra que eu falei desse curso há quase um ano? Ele está acontecendo em BH de novo. E dessa vez eu não dei bobeira! Já me matriculei. Vai acontecer de 30 de novembro a 04 de dezembro, à noite. Só recebi referências boas. E sei que vou curtir adoidado.

E falando em cinema, esse fim-de-semana vai ser movimentado para os amantes da sétima arte. Na Casa do Baile, começa no sábado (14/11) a programação do Filme no Baile, que nesse mês contempla ninguém menos que Jean-Luc Godard, grande cineasta francês que é praticamente uma unanimidade quando se trata de cinema. E no Cine Humberto Mauro teremos a mostra A Perseguição no Cinema, que traz quatro filmes clássicos e um seminário com a filósofa francesa Marie-Jesus Mondzain. Dentre os filmes exibidos estão O Mensageiro do Diabo, de Charles Laughton; e Os Pássaros, do grande Hitchcock.  Tudo gratuitamente. Dessa vez não tem desculpa pra não sair de casa e pegar um cineminha!

E, para completar, no Domingo tem o primeiro Encontro de Twitteiros Culturais em Belo Horizonte. Irei, junto com meu marido, representando os sites. O objetivo desse encontro é promover um debate saudável entre os twitteiros de BH que usam o twitter como uma ferramenta de divulgação cultural. O Encontro vai acontecer às 16hs no Status Café. Nesse link no início do parágrafo tem mais detalhes, caso você tenha se interessado.

Ainda não me segue no Twitter? Tá dando bobeira… Meu endereço é twitter.com/priskka e os endereços dos sites são twitter.com/opperaa e twitter.com/mondobhz. Segue a gente pra saber do melhor em programas culturais em BH!

Beijos! 🙂   

 

Ontem eu vi o João Moreira Salles…

with one comment

Meu povo amigo, voltei!

Não, não morri! Ainda tem alguém aí? Não sei! Espero que sim! Porque agora é que vem a grande virada deste blog… 

Depois de tanto tempo, decidi que vou mudar o formato deste meu “veículo”.  Decidi abolir completamente tudo que já fiz antes. Já fui autoral, já peguei conteúdo do Opperaa e do Mondo BHZ, já peguei conteúdo de outros sites.

Agora, serei, simplesmente, autoral. Isso vai dar um trabalhão danado! Mas não tem jeito… Mesmo atualizando menos, tenho que ser eu mesma. Cansei do lugar comum. E de ficar recortando notícia. Não estava acrescentando nada a ninguém.

Espero que vocês me acompanhem nessa jornada em busca de mim mesma…

————-

Ontem (03/11) eu fui no Teatro Ney Soares, no Uni-BH, ver o João Moreira Salles. Ele é um cara legal, meio nerd, e foi falar sobre a Revista piauí. Você lê a piauí? Não? Nem eu. Mas mesmo assim não boiei. O debate deu uma boa ideia de como é a revista. E sobre como o trabalho é desenvolvido lá.

Basicamente, lá é o lugar onde todo jornalista gostaria de trabalhar. Qualquer tema pode, teoricamente, dar matéria. Não há editorias fixas ou reunião de pauta. A única regra é que as entrevistas precisam ser presenciais: por telefone, e-mail ou sinal de fumaça não vale. E há um tempo considerável para se redigir o texto. Ele varia de dois dias a um ano, dependendo da complexidade do tema. E ele citou o exemplo do perfil da Dilma Rousseff, no qual o repórter passou quase quatro meses ligando todo dia pro escritório dela.  E conversou com todo mundo que a conhecia. Até que ela resolveu dar entrevista. Não tinha nem como deixar de dar, ela concluiu obviamente.

Fiquei intrigada com ele. Não gosto de nada pomposo. Gosto de coisas simples. Práticas. De repente, ele me vem com “não gosto da expressão ‘jornalismo literário’. Prefiro ‘jornalismo narrativo'”. Para mim, os dois são o mesmo. Acredito que dizer que um filme é um “bom pipocão” é melhor que dizer “longa-metragem que respeita os parâmetros da tendência contemporânea de produções hollywoodianas”. Os dois querem dizer o mesmo? Sim! Qual é a diferença então?

A diferença está na forma, não no conteúdo. Isso o próprio Salles disse.

Porém…

O jeito como você apresenta a informação define o seu público. Isso sou eu que digo. No caso dele, uma revista com matérias longas e trabalhadas encontrou abrigo nos corações dos cults. Eu preferia que meu público fosse meio termo, nem rebuscado demais nem “boquinha na garrafa” demais. Nada contra nenhum dos dois, obviamente. É que eu sou uma pessoa mediana, sabe? E acho que os medianos teriam mais facilidade de se identificar comigo. Não sou escritora nem nada. Tô falando do Opperaa e do Mondo BHZ mesmo, pros quais escrevo.

Enfim, ainda estou na expectativa de que os sites emplaquem. Enquanto isso, admiro o Salles, por seu bom trabalho e o invejo por ter a autonomia financeira que tem. Ou seja: ele não precisa que a piauí dê certo para sobreviver. Nem precisa que seus filmes sejam assistidos pelas massas. Ele é um desses caras que acha que o dinheiro não é um objetivo e sim um meio. Discordo dele. Mais pra frente vocês entenderão o porquê.

Written by Priscila Armani

quinta-feira, novembro 5, 2009 at 10:27 am

A história do Contador de Histórias

leave a comment »

contador_historias

Fonte: Mondo BHZ

Belo Horizonte, final da década de 70. Um garoto de seis anos, caçula de dez irmãos, mora na favela em condições precárias. Ele é o escolhido por sua mãe para ir viver numa nova instituição, anunciada pelo governo como uma oportunidade para aqueles que viviam na pobreza. A instituição era a Febem. E essa história poderia terminar muito mal, como tantas outras.

Mas ao invés de ser um assaltante ou um morador de rua, Roberto Carlos Ramos decidiu ir além. Sua trajetória de vida é o tema de O Contador de Histórias. Dirigido por Luiz Villaça, o filme foi realizado graças a iniciativa dele, que se interessou pela história depois de lê-la num livro. “Estava lendo para o meu filho. Era uma história infantil. No final do livro, descobri que era a história do contador de histórias. Fui atrás dele e conversamos. Gravei uma série de bate-papos que tivemos”.

As gravações fomentaram a elaboração do roteiro, mas a participação do contador de histórias parou aí. Isso foi um acordo entre o diretor e o personagem. Roberto Carlos deu total liberdade a Villaça para trabalhar. “Como o filme não é um documentário, combinei com o Roberto que ele só veria o filme pronto. E ele me deu total liberdade. É uma ficção. Baseada na vida dele, é verdade, mas uma ficção”. 

No filme, Roberto Carlos é retratado em três momentos: aos seis (Daniel Henrique), aos 13 anos (Paulinho Mendes) e já adulto (Cleiton Santos). Fugitivo reincidente da Febem, a vida dele mudou quando conheceu a francesa Margherit Duvas (Maria de Medeiros), pedagoga que veio ao Brasil pesquisar a realidade dos garotos de rua e terminou tomando Roberto Carlos sob sua proteção. Mas não foi simples a transição da rua para o ambiente familiar, onde regras e comportamentos eram necessários.

Luiz Villaça diz que dois foram os motivos principais para fazer esse filme. “Em primeiro lugar, pelo enredo em si, que é fantástico. Depois por causa da relação que Roberto mantém com a pedagoga, que é muito bonita. Além disso, a possibilidade de contar a história de um contador de histórias me deu muitas chances de brincar”, conta. De acordo com o diretor, O Contador de Histórias dialoga muito com quem assiste, por ser muito lúdico. 

O filme recebeu o selo da Unesco, Organização das Nações Unidas.

Written by Priscila Armani

quarta-feira, agosto 12, 2009 at 6:34 pm

Mondo BHZ

leave a comment »

mondo_bhz

Está no ar mais uma iniciativa que realizo em parceria com o jornalista Salomão Terra. É o Mondo BHZ, site de crítica cultural, cujo mote principal é “Guia de Artes de Belo Horizonte”.

Sim, nosso objetivo é ser um guia crítico da cena cultural que rola na capital de Minas. Recomendar lugares para ir ouvir boa música, assistir shows legais, comer coisas gostosas, discutir boas obras literárias… e também não deixaremos de contar a verdade sobre certos lugares que todo mundo adora recomendar e… bem… não são tão legais assim.

A parte boa disso é que iremos experimentar muita coisa com o objetivo de analisar e isso significa sair mais e vivenciar melhor a cena cultural de nossa querida capital. A parte ruim, que já estamos enfrentando, é passar raiva. Ir em lugares com certas expectativas que não são atendidas. Mas isso faz parte.

Se você mora em BH e se interessa por conhecer mais sobre o que a cidade tem a lhe oferecer, acompanhe a gente nessa nova empreitada e saiba o ponto de vista de quem, de fato, vai aproveitar as dores e as delícias desta metrópole, o nosso “mundo vasto mundo”.

Se você tiver twitter, nos siga: www.twitter.com/mondobhz

Written by Priscila Armani

domingo, julho 26, 2009 at 11:25 pm