Priscila Armani – Jornalista

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O público é levado diretamente ao front por Guerra ao Terror

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Apesar de não ter entrado em cartaz nos cinemas brasileiros e ter sido lançado diretamente em DVD em abril de 2009 pela Imagem Filmes, que subestimou a obra, Guerra ao Terror é um dos melhores filmes desse ano. Prova disso foram suas premiações no Oscar: melhor filme e direção, além de outras quatro.

O filme também arrebatou muitos dos mais importantes prêmios do cinema mundial. Praticamente uma unanimidade, foi premiado em festivais norte-americanos e internacionais de renome, como o de Veneza, em diversas categorias. Entre atuação, direção e roteiro são mais de 30 premiações e indicações. Recentemente, venceu também o Critics Choice Awards. Sobre o Globo de Ouro, sem comentários. Não é preciso pesquisar muito para saber que esse prêmio não representa absolutamente nada pra história do cinema.

Mas, sem mais demora, cabe aqui explicitar porque o filme vale a pena ser visto. Quando a narrativa começa, faltam apenas 38 dias para que uma equipe de soldados norte-americanos de um esquadrão anti-bombas retorne a seu país de origem. Eles estão cumprindo serviço no Iraque. E, naturalmente, contam os dias até poderem voltar pra casa.

Seu cotidiano é feito de tensão à flor da pele. Cada um dos personagens da equipe possui um perfil psicológico denso, que Kathryn Bigelow desenvolve sem precisar de muitos diálogos. Sargento JT Sanborn (Anthony Mackie) aparece em seus primeiros minutos de filme já nos comovendo, simplesmente com sua expressão de medo e seu olhar de tristeza. Já o especialista militar Owen Eldridge (Brian Geraghty) carrega sobre suas costas, o tempo todo, o peso da culpa, juntamente com a mochila. O fardo é muito pesado e facilmente qualquer um de nós consegue se identificar com ele. É o retrato, puro e simples, do que sentem a maior parte dos soldados quando estão no front.

Sim, Kathryn se esforça para nos levar até o campo de batalha com eles. Uma luta urbana, na qual os iraquianos são, ao mesmo tempo, heróis e vilões. Para nos dar a sensação de que estamos junto com os soldados, vivenciando o seu cotidiano instável, temos um uso muito inteligente da câmera: as imagens são tremidas, nervosas, fazendo com que o aspecto documental predomine durante a maior parte do filme.

A diretora, detalhista, também sabe explorar os pequenos momentos cinematográficos que fazem subir a pressão do espectador. A beleza de uma explosão e de uma morte em slow motion, um gato que corre com a pata quebrada, o suor autêntico demais pra ser fingido, um cartucho que cai na terra anunciando a morte, uma pipa que flutua tranquila e solitária no céu depois de uma explosão, o nojo de descobrir um corpo-bomba.

Isso sem falar na areia, nas moscas, no suco escasso, compartilhado em meio ao tórrido calor do deserto, e numa chuveirada com traje militar, armas e tudo, cuja intenção é lavar mais do que a sujeira do corpo. Diga-se de passagem que este último é um dos momentos mais bonitos e memoráveis de Guerra ao Terror.

Outro recurso interessante de câmera bastante explorado por Kathryn se trata do uso de variados ângulos em uma mesma cena. Praticamente em todas as sequências do filme, especialmente nas mais tensas, observamos em ação, pelo menos, quatro câmeras. É a imagem de longe, de perto, focalizando um capacete, usando diferentes primeiros planos de uma mesma conversa. O público tem a sensação de ser onisciente e conseguir visualizar, ao mesmo tempo, tudo que acontece. E o trabalho é tão caprichado que em nenhum momento esse movimento todo nos tira do universo criado pelo filme.

Por fim, merece um destaque à parte a atuação de Jeremy Renner como William James, desarmador de bombas que se expõe aos riscos mais inacreditáveis durante o filme todo e que é o perfeito exemplo de como a guerra mexe com o psicológico de um ser humano. (Aliás, todos os três personagens são exemplos disso.) Atrevido, independente, sem nada a perder, o líder da equipe parece ser indestrutível, inabalável, mas ele é também, no fundo, apenas mais um jovem assustado. Ainda assim, o destino do personagem segue uma lógica própria e não nos espantamos com o que lhe acontece quando sobem os créditos finais.

Guerra Ao Terror mostrou a Hollywood que não são precisos os melhores efeitos especiais do mundo para se merecer o prêmio de Melhor Filme. O que isso significará para o futuro da história do cinema? Difícil dizer. Vamos aguardar.

 

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Written by Priscila Armani

quarta-feira, março 10, 2010 at 12:19 pm