Priscila Armani – Jornalista

Cinema, cultura, mídia e variedades nas palavras livres de uma jornalista.

James Cameron inventa um novo mundo em Avatar

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Casal protagonista de Avatar

James Cameron demorou 15 anos para conseguir realizar Avatar, seu novo filme. O esforço do cineasta criador do Exterminador do Futuro e realizador bem sucedido de Titanic é realmente de se admirar. Desde o romance meloso entre Jack e Rose ele tem trabalhado incansavelmente nesse épico colorido, especialmente em torno da tecnologia que o tornaria possível. Isso fez com que criasse um filme que será divisor de águas em termos de inovações.

Para que o filme fosse feito totalmente em 3D, o diretor recriou, em parceria com a Sony, essa tecnologia, para que não houvesse nenhum tipo de desconforto para o espectador ao assistir (antes o 3D provocava tonturas no público quando usado durante muito tempo) e Cameron pudesse ter controle total sobre o que estava sendo filmado. Além disso, os atores tiveram suas imagens criadas em CGI a partir do uso de uma espécie de malha, composta por pequenos pontos refletores que capturaram seus movimentos faciais e corporais com microcâmeras próximas da face e 140 câmeras simultâneas que os registraram em ação. A partir desses movimentos, os animadores criaram as imagens dos personagens.

O diretor também criou uma língua para os humanóides que habitam Pandora, os Na’Vi. Para isso, contou com a ajuda de linguistas como Paul Frommer, criador do idioma klingon, de Star Trek. Também foram formulados uma gramática, sintaxe, morfologia e todos os elementos de uma linguagem. Isso significa que a língua dos Na’Vi, de fato, existe. E independe do filme.

As plantas e animais do ecossistema de Pandora foram todos elaborados por uma equipe de botânicos e biólogos, que se basearam em diversas espécies aqui da Terra, mas foram aperfeiçoados, para que pertencessem ao novo mundo. À noite, a floresta se mostra biofluorescente, com plantas que emitem luzes multicoloridas. Os animais são todos muito coloridos e lembram bastante dinossauros, por seu porte e formas. São facilmente identificáveis principalmente os “pterodáctilos melhorados”, nos quais os Na’Vi montam para voar.

O enredo consiste numa história futurista, que, como muitas outras, prevê que os humanos destruirão a Terra e sairão rumo a outras galáxias para prosseguir destruindo a natureza de outros ecossistemas. No caso, o local é Pandora, uma lua que está na órbita de um planeta gasoso chamado Poliphemus, em Alfa Centauro. No solo dessa lua há um mineral cuja exploração vale milhões de dólares. Então uma série de mercenários provindos do exército, marinha e aeronáutica são contratados para ajudar na expulsão de uma raça humanóide primitiva chamada Na’vi dos locais mais propícios para a exploração desse mineral.

Dentre esses mercenários está Jake Sully (Sam Worthington), um fuzileiro naval paraplégico. Ele é chamado a participar do projeto Avatar, em Pandora, para cobrir a ausência de seu falecido irmão. Esse projeto consiste no uso de corpos híbridos semelhantes aos do Na’Vi, para que se infiltrar e aprender os costumes deles. Jake se infiltra acidentalmente em um dos clãs, o Omaticaya, inicialmente interessado em obter informações.

A história é desafiadora e coloca em cheque uma série de fatores históricos da colonização. Impossível evitar comparações com o que aconteceu com os Incas, Maias e Astecas, especialmente quando se vê a destruição que os humanos querem fazer naqueles ambientes que para os Na’Vi é considerado sagrado. Também não podemos nos esquecer que escolas para ensinar língua e costumes a nativos foram frequentes, inclusive, no Brasil, quando da colonização portuguesa. Da mesma forma que os Na’Vi, nossos índios conviviam em harmonia com a natureza e cultuavam seus deuses. E também veio o “homem branco” e destruiu tudo. A mensagem que Cameron nos deixa é de que a história, inevitavelmente, se repete e nada indica que agiríamos diferente na busca por outros planetas.

O filme vem sendo bastante comparado com Star Wars e é fácil entender porque. As duas histórias são completamente distintas visto que Avatar tem clara temática ambiental e é mais um filme que se encaixa na categoria de colocar a indústria e o devorador lucro capitalista como vilões. Mas em ambos os épicos podemos perceber a valorização das imensas paisagens, das belezas naturais, das grandes cenas de luta no ar e na terra, e das monstruosas naves, que preenchem toda a tela. Claro que o meio ambiente é, no filme de Cameron, um personagem a mais, e, à serviço do enredo, é muito mais valorizado e colorido. Mas nem por isso as gigantescas máquinas perdem seu lugar. Há de se ressaltar também que há uma expectativa de que Avatar venha a se tornar para a história do cinema o que Star Wars foi.

Mas, apesar de tanta tecnologia e uma valorização visual sem precedentes, esta obra ainda possui alguns pontos fracos. Seu enredo, a princípio bastante interessante, não deixa de cair em velhos clichês. Lembro-me de ouvir falar que Cameron concebeu Titanic para ser um filme que atingisse todos os públicos: havia ação para os homens e romance para as mulheres. Esse filme tem algo a mais: atinge em cheio às crianças. Os Na’Vi se tornaram brinquedos bonitinhos e rentáveis. Além disso, Avatar já tem vídeo-game para Playstation 3, XBOX 360, PC, Wii e até Iphone. Muito lucrativo para os estúdios, pouco desafiador para quem assiste.

Isso porque o filme possui atuações fracas inexplicáveis por parte dos personagens “humanos”. Jake Sully é uma lástima, bastante inexpressivo, enquanto seu avatar é excelente ator! O mesmo acontece com a veterana Sigourney Weaver, que faz a Dra Augustine e cujo avatar lhe é fisicamente muito semelhante. Mas se a construção dos avatares vem das expressões físicas e faciais dos humanos, como explicar que estes na tela tenham um desempenho aquém de suas representações virtuais? Cabe até mesmo pensar se isso não foi algo intencional, com uma clara valorização dos Na’Vi ante os seres humanos. Merece destaque o ator Stephen Lang como o Coronel Miles Quaritch, uma das melhores atuações “humanas” de Avatar.

Outro fato a se lamentar é que, assim como em outros filmes, a temática ambiental apresentada não deixa a sala de cinema com o público. As pessoas se emocionam com o enredo, ficam do lado dos Na’Vi e acreditam na importância de se valorizar o meio ambiente. Mas não reciclam o próprio lixo de suas casas. A mudança de atitude pode ser algo que está sendo encorajado por diversas obras recentes de Hollywood. Porém, construir novos paradigmas é algo que vai muito além de entretenimento. Infelizmente, o público ainda acredita que a destruição da natureza do nosso planeta é algo distante, que eles vêem apenas na ficção.

Todos esses contrapontos de forma alguma desvalorizam o esforço de Cameron e sua equipe. Avatar é, de qualquer maneira, um divisor de águas na forma de se fazer cinema. Tecnicamente falando. O que cada espectador tira do enredo apresentado varia muito, vai da consciência de cada um. E quanto a isso, não há nada que a tecnologia possa fazer.

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Written by Priscila Armani

segunda-feira, janeiro 11, 2010 às 4:24 pm

Publicado em Cinerama

Uma resposta

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  1. Fui ver o filme com um pé atrás, mas me surpreendi e acabei gostando.

    Lalá

    terça-feira, janeiro 12, 2010 at 11:34 am


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