Priscila Armani – Jornalista

Cinema, cultura, mídia e variedades nas palavras livres de uma jornalista.

Questionamento da loucura

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Sabe aquele papo de “eu não posso morrer antes de…” que as pessoas tem mania de falar? Tipo, eu não posso morrer antes de pular de pára-quedas ou toda essa baboseira? Pois bem, meu caro. Eu te digo, com certeza: você não pode morrer, de jeito nenhum, sem assistir “Um estranho no ninho“.

Porque? Vou te explicar porque. Por um motivo simples: este é, até os dias de hoje, um dos melhores filmes de todos os tempos! É um drama intenso, visceral, que explode com todos os conceitos da psiquiatria da década de 70! Se você não toma cuidado, explode seus neurônios! Caramba, isso não é um filme, é um trator.

Jack Nicholson é, simplesmente, fenomenal, numa das atuações mais brilhantes da história do cinema. Dois Oscars pra ele é pouco demais! Como é que aquele Curinga que ele fez não ganhou o Oscar? Me ajuda aí! Não foi por nada que o American Film Institute lhe concedeu, em 1994, o prêmio pelo conjunto da obra de sua vida. A Academia comete seus erros. E quem assiste esse filme concorda que três Oscars pra esse cara não é nada!

Você sabia que Nicholson recusou o papel de Michael Corleone no primeiro The Godfather? E que Bob Kane, criador do Batman, o recomendou pessoalmente para interpretar o Curinga em 1989? Leia a biografia da vida desse cara. Sério. Ainda vai virar filme!

Bem, para quem não sabe, “Um estranho no ninho” (One Flew Over the Cuckoo’s Nest, no original) conta a história de Randle Patrick McMurphy, prisioneiro que banca o louco para sair da prisão direto para o manicômio. Mas, quando ele chega lá, percebe que as coisas não são nada fáceis e que sua idéia não foi tão boa assim. Incrivelmente, ele se comunica de maneira excelente com os pacientes e eles estabelecem uma ligação maravilhosa. É triste, triste demais finalmente perceber, com esse filme, como o movimento de luta antimanicomial tem razão. É de cortar o coração as formas de tratamento que os portadores de sofrimento mental recebem. E o pior: perceber que o desajustado McMurphy é a pessoa mais humana do manicômio. É ele quem mais pensa no bem-estar dos pacientes.

Para mim, o ápice da obra é quando Nicholson concretiza a vontade presa na garganta de todos os espectadores e avança sobre a maldita enfermeira para matá-la (interpretada por Louise Fletcher). Todo mundo fica torcendo pra ele conseguir. E olha que eu tenho três amigas enfermeiras! Mas essa é pior que vilã de novela das oito.

Curiosidades:

  • O filme foi todo rodado dentro de um hospital de verdade, com alguns pacientes com problemas mentais de verdade. A equipe toda praticamente morou no hospital durante a filmagem, com alguns deles tendo se relacionado com portadores de sofrimento mental para conhecer melhor o seu mundo. E as sessões de terapia em grupo representam quase todas as melhores seqüências do filme. Várias tomadas dessas terapias foram feitas com os atores nunca (eu disse nunca) sabendo que estavam sendo filmados.
  • A cena da pescaria foi filmada e incluída na montagem final só depois de Michael Douglas, Saul Zaentz e todo elenco insistir muito com o diretor Milos Forman. Muitas das caras de nojo que os atores faziam eram verídicas: estavam todos com enjôo no barco, menos Nicholson. E essa cena é a única do filme que não foi filmada na sequência prevista no roteiro. O filme inteiro foi filmado na ordem em que foi montado.
  • Esse filme demorou 13 anos para se concretizar graças à burocracia da Tchecoslováquia e tantos outros empecilhos. Foi uma saga enorme. Não caberia aqui. Saiba mais.
  • O filme foi a estréia no cinema de três grandes atores. Brad Dourif (que fez “O Veludo Azul”, “Alien: a ressureição”, a voz do “Chucky” e “O Senhor dos Anéis: As Duas Torres” e “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” – nesses dois últimos está irreconhecível), Christopher Lloyd (o popular professor do clássico dos anos 80 “De volta para o futuro”) e Danny De Vito ( o Pinguim de “Batman – O Retorno”, estava em “O nome do jogo” e já fez outros inúmeros filmes comédia-pastelão). O que eu não sabia é que foi a produtora de De Vito que tornou possível, nada mais, nada menos que “Pulp Ficcion”.

Enfim, se tudo isso não te convenceu, vá pular de pára-quedas. Mas lembre-se, se o Padre dos balões de festa não se salvou, o que vai ser de você hein?

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Written by Priscila Armani

sexta-feira, maio 2, 2008 às 11:25 pm

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