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Ver e enxergar (ou o último dia de CineBH)

Hoje (04/11) terminou a Mostra CineBH e foi o único dia em que tive tempo de ir. Lamentei demais não ter ido na Segunda-feira ver a pré-estréia de “Feliz Natal“. O Selton Mello estava lá. Se eu soubesse, não teria perdido a oportunidade de entrevistá-lo!
Mas assisti Janela da Alma, documentário feito em 2001 e adorei. Nele, 19 personalidades e também pessoas comuns falam sobre suas percepções de mundo, tendo por fio condutor a visão. Temos o vereador de Belo Horizonte Arnaldo Godoy, que é cego e descreve o drama que foi perder a filha pequena no mar; temos Hermeto Pascoal e seus olhos que não param quietos e temos o diretor Win Wenders, que não consegue usar lentes de contato, por serem muito “abrangentes”.
Mas o que mais me tocou, mesmo, foi a cena final do filme e não se preocupem, que não estarei fazendo nenhuma grande revelação aqui. Podem ler tranquilos.
Nasce um bebezinho, de parto normal e cheio de sangue. Passam uma toalha nele, limpando-o. Ele chora. A câmera, então, focaliza os olhinhos dele. Eles acabaram de abrir. Ficam piscando. E experimentam a luz do mundo pela primeira vez. Uma metáfora muito bonita, que só entende quem vê o documentário.
Ralo fedido, filme bem feito

Esse fim-de-semana tive o prazer de assistir “O Cheiro do Ralo“, filme brasileiro protagonizado por Selton Mello e baseado em livro de Lourenço Mutarelli.
O filme é uma viagem muito louca que, segundo o próprio autor, ele teve em cinco dias, durante um carnaval, em que não estava conseguindo entregar os trabalhos atrasados. Para quem não conhece, Mutarelli é um quadrinista paulista bastante talentoso e que já sofreu várias crises de síndrome do pânico. Como podemos vê-lo dizer com suas próprias palavras no DVD, o artista só se sente bem quando sabe onde fica a farmácia mais próxima.
Podemos vê-lo atuando como o segurança que sempre usa vermelho nesse filme. Raras vezes vemos isso no cinema, um escritor que atua num filme que é baseado em sua própria obra. Em 90% dos casos, eles não estão “nem aí” ou estão “tão aí” que “descem a lenha” no filme ou em tudo relacionado a ele.
Mas o relacionamento do autor com o diretor Heitor Dhalia (que também fez o excelente Nina) e o ator Selton Mello é excelente e facilita muito as coisas. No Diário de Selton Mello, que compõe os Extras do DVD, vemos que a idéia de filmar a obra foi do próprio Selton e que o ator trabalhou muito para que o projeto fosse possível e ficasse fiel. Não li o livro ainda, mas parece ter funcionado. O resultado é, simplesmente, fantástico.
“O Cheiro do Ralo” conta a história de Lourenço, um rapaz que trabalha comprando todo o tipo de coisas e revendendo-as, ganhando muito dinheiro com isso. Na mente dele, o dinheiro lhe dá poder sobre as pessoas e ele acaba tratando tudo e todos como objetos, desde sua noiva (que ele não chama pelo nome, é apenas “noiva”) até a garçonete de uma lanchonete, pela qual ele não se apaixona, ele apenas fica louco pela bunda dela. Ou seja, de mulher ela passa a ser bunda na cabeça dele. Ele nem sabe qual é o nome da moça.
Além disso, ele fica com nojo e com fissura pelo cheiro do ralo de seu banheiro, que fede a… aquilo que você já sabe. Ele tenta se livrar do cheiro, até chega a cimentar o ralo, mas acaba se tornando “viciado” naquele odor imundo.
Surpreendente, envolvente e engraçado, o filme nos envolve e nos enoja, sendo uma obra prima de interpretação do Selton. Prestem atenção nesse cara. Se bobear, um dia ele nos traz um Oscar.
“Os Desafinados”
Leiam, abaixo, minha crítica sobre este filme, que está nos cinemas de todo o Brasil*.
Afinados sim, mas… talentosos não!
A Bossa Nova está fazendo 50 anos. Dentre outros eventos comemorativos, o filme “Os Desafinados” vem numa tentativa horrível mostrar a história de cinco músicos e um cineasta que fizeram parte desse contexto, enfrentaram os horrores da Ditadura e tudo aquilo que você já viu em novelas, seriados e outros programas televisivos sobre o tema.
A graça do filme está no personagem de Selton Melo, o cineasta Dico. Selton é um ator tão excepcional que consegue fazer qualquer personagem valer a pena. Ele acompanha os músicos, registrando tudo sempre com sua câmera. E transforma um personagem que poderia ser apenas apoio naquele que mais consegue impactar o espectador.
Surpreendentemente, Jair Oliveira, que nem ator é, também consegue transmitir sinceridade, até porque é o único da trupe que canta de verdade, sem playback.
O resto do elenco, uma porcaria. Rodrigo Santoro, como Joaquim, mostra que Hollywood pode ter estragado um ator que prometia muito. Neste filme ele é um protagonista que fala bem inglês e espanhol, mas nem de longe mostra a vitalidade que tinha em “Bicho de Sete Cabeças” ou até mesmo em “Carandiru”. Lágrimas falsas e atuação pobre.
E com duas protagonistas de dar dó. Alessandra Negrini conseguiu ser pior que nas novelas globais. Cláudia Abreu era apenas a “gostosa” do filme, sempre peladona e atuando como a amante loira. Quanto clichê.
Foi a primeira vez que vi as pessoas ligando o celular durante a projeção, para ver as horas, ansiosas por ir embora. Eu, particularmente, estava que não aguentava mais, doida pro filme acabar logo e curiosa para saber como um enredo que não saía do lugar iria evoluir num desfecho. A resposta: não evoluiu.
Foi a primeira vez que vi, também, as pessoas se levantando para ir embora, fulas da vida com o final, sem nem esperar o filme acabar direito. O filme conseguiu, inclusive, ter um dos piores finais da história do cinema brasileiro. Sério. Me deixa revoltada saber que a Ancine deixa de patrocinar bons roteiros e prioriza umas porcarias dessas.
*Este texto foi publicado originalmente no Opperaa.

