Menos papel, mais SMS

O Pew Research Center for the People & the Press divulgou a mais recente edição da pesquisa que costuma realizar a cada dois anos e que detecta as tendências no consumo de noticias. Os resultados indicam algo já esperado: a queda na leitura dos impressos, sendo que esta foi ainda maior que a leitura das edições on-line dos periódicos.
Dos que participaram da pesquisa, 34% responderam que tinham lido jornal no dia anterior. Na pesquisa realizada em 2006, esse percentual era de 40%.
Já a audiência de telejornalismo permaneceu estável em relação a 2006. Mas os canais de notícias a cabo levaram vantagem, com ganho significativo de 34% para 39% em 2 anos.
O percentual dos norte-americanos que disseram ler notícias on-line pelo menos 3 vezes por semana subiu de 31% para 37%. E a porcentagem de pessoas que acessam notícias na web (37%) está maior do que a audiência de um dos telejornais noturnos das TVs abertas (29%).
Engraçado observar que os jovens (com menos de 25 anos) tem consumido cada vez menos notícias. Em uma década, o percentual de não-consumidores passou de 25% em 1998 para 34%. Além disso, 37% desses jovens disseram que, quando se informam, é a partir dos telefones, por meio de SMS recebidos.
Bye Bye revisores…
Que o jornalismo está em crise não é novidade para ninguém. Especialmente esse jornalismo de jornal impresso, que está indo para as cucuias mesmo.
Ultimamente as vítimas preferidas dos cortes nas redações de jornais americanos tem sido os copy editors, o pessoal do copydesk, responsável por revisar o conteúdo das edições. São esses profissionais, tanto nos EUA quanto aqui, que evitam erros da língua e informações desencontradas de serem impressas.
Segundo a pesquisa “The Changing Newsroom“, realizada pelo jornalista Tyler Marshall e pelo Pew Research Center’s Project for Excellence in Journalism, 62% das grandes empresas jornalísticas disseram que reduziram o número de copy editors nos últimos três anos. Só 2% dos jornais pesquisados informaram ter aumentado o número desses profissionais.
Imagino que seja por isso que eu tenho visto tantos erros em jornais impressos:

Ainda de acordo com o estudo, apenas 5% dos editores-chefes dos jornais pesquisados (grandes e pequenas empresas) se mostraram confiantes na sua capacidade de prever como suas redações estarão daqui a 5 anos.
Lixornalismo

Hoje, lendo jornal, me deparei com a famigerada matéria: “Mineiros fazem mais sexo do que cariocas“. Bom, mais uma matéria desse tipo. Ah, como estou cansada disso.
A tal matéria esclarecia que a USP fez uma pesquisa com homens e mulheres sobre suas vidas sexuais. Aparentemente, os homens disseram que em Minas Gerais a média de relações sexuais é de quatro vezes por semana (ha ha ha) e os cariocas disseram que a média deles é três. Ok, mas porque estou eu falando disso aqui?
Veja bem, o que me interessa uma notícia desse porte? Talvez seja uma boa curiosidade para comprovarmos que os homens mineiros são mais mentirosos que os cariocas (e como são…). Tem algumas cidades em Minas que são tão pequenas que nem motel tem. Acho difícil que uma meta dessas, bastante ambiciosa para alguns, seja facilmente alcançada por cada um dos mineiros. Mas isso nem é o mais importante.
O mais importante é, na minha opinião, saber porque uma porcaria dessas vai parar em jornais que se dizem de respeito. Os tablóides, ok. Eles falam de mulheres mortas na cozinha. Eles divulgam suicídios. Eles estão pouco se lixando. Eu não os leio. Mas me preocupo, porque custam a miséria de R$0,25.
Mas aí quando vários sites e jornais dão destaque para uma notícia de inutilidade pública dessas, eu me preocupo muito. Poxa vida! Tem milhões de coisas acontecendo no mundo! Cadê as notícias, mas eu digo as notícias de verdade? Cadê? Que isso…
Por isso, acredito que estamos vivendo a famigerada era do “lixornalismo”. Esse termo eu criei. Significa: tudo quanto é tipo de porcaria que é publicada em veículos de comunicação sob o rótulo de notícia. E, para mim, notícia é: tudo aquilo que contribui para o bem-estar e formação de opinião crítica dos cidadãos leitores e espectadores dos veículos de comunicação.
Tendo isso como base, reflita bem, você que está me lendo. Em quê contribui a “notícia” citada para o bem-estar e formação de opinião crítica de alguém? A resposta: para ninguém. A “notícia” aqui apresentada não é notícia. Porque não é jornalismo. É entretenimento. Esse fato apresentado, que mineiros fazem mais sexo e tal, serve apenas para entreter o leitor. Não o leva a nenhuma reflexão. Da mesma forma que uma mulher pelada ou um show de calouros também não leva. Isso tudo é apenas para entreter nosso lado animalesco. Que precisa ser entretido, veja bem. Nada contra. Mas se chamamos erroneamente algo dessa categoria de jornalismo, estamos praticando “lixornalismo”. E é esse tipo de prática que está levando o jornalismo de verdade à morte.
Francamente, estou cansada disso. Não queria que minha profissão morresse. Mas acredito que isso vai, tristemente, acontecer. E os jornalistas são os próprios assassinos e não sabem. Dizem besteiras do tipo: “estou dando ao público o que ele quer”! Ai, ai… quanta ingenuidade.
CQC e o jornalismo que agoniza
Na última segunda-feira, 09 de junho, fiquei realmente surpresa com o programa da TV Bandeirantes, o CQC, que estava passando e eu nunca tinha assistido em sua totalidade.
Minha supresa veio do fato de que me deparei com uma matéria do humorista Rafinha Bastos que era, simplesmente, sensacional! O quadro se chama “Proteste já”. E a matéria não era humorística não… era jornalismo! Pasmem… nem sei se aquele cara era jornalista formado mesmo, mas, enfim… fiquei boba!
Ele estava falando de superfaturamento de merenda escolar em Mairiporã, cidade que fica no estado de São Paulo, e entrevistou o prefeito da cidade, entrevistou todos os envolvidos e fez o trabalho direitinho. Ouviu todas as fontes e contribuiu, por meio de sua denúncia, com o Ministério Público, que está abrindo processo para investigar o caso. Fazia tempo que eu não via algo assim acontecer, sabe? Com bom humor e ética, ele soube abordar o assunto. E isso me encheu de esperanças de que o jornalismo ainda possa existir daqui a 20 anos.
Mas CQC é jornalismo? Eis a questão. Mas, além desta, trago outras questões ainda mais polêmicas:
1.Sensacionalismo é jornalismo?
2.Será que se a Globo faz uma matéria ela é jornalística e se o CQC faz é humor?
3.Coberturas exageradas de casos sangrentos como o Nardoni e o do austríaco que trancou a filha são necessárias?
4.O jornalismo deve formar ou informar cidadãos?
5.Onde está o limite entre jornalismo e showrnalismo?
6.O que é notícia? O bom? O bizarro? O que tiver os melhores ângulos?
Acredito que estamos numa crise sem precedentes do jornalismo e isso por um motivo bem simples. A maior parte dos jornalistas não consegue, em seu dia-a-dia de apuração, responder à essas perguntas. Virou um verdadeiro pandemônio. Todo mundo é comunicador, mas, ao mesmo tempo, ninguém é. A balbúrdia predomina e as pessoas, lógico, não tem tempo de digerir tanta informação. E a informação veiculada tem sido da pior qualidade.
Aqui em Belo Horizonte temos duas publicações sensacionalistas: Super e Aqui. São de embrulhar o estômago. E custam R$0,25. Todo mundo lê. Por causa da qualidade? Obviamente não. O sucesso do jornal se deve aos R$ 0,25. Fico torcendo pro preço subir e todo mundo falir. Mas não sobe… uma pena. Eles não são tão burros assim.
Fico me perguntando como será o futuro do jornalismo se um gigante como a Globo está perdendo a majestade, os jornais de qualidade estão falindo e as pessoas preferem assistir ao Youtube e alugar filmes do que saber das notícias.
Mino Carta disse, em uma entrevista recente, que acredita que o jornalismo brasileiro não tem futuro porque os jornalistas acham que o público é burro. Eu assino embaixo. E digo mais: os jornalistas acham que conhecem o público. Doce ilusão. Talvez Steve Jobs esteja mais perto disso que nós.
