Priscila Armani - Jornalista

Maratona sexual

Enviado em Literatura by Priscila Armani em Agosto 10th, 2008
O autor de "Just Do It", Douglas Brown.

O autor de "Just Do It", Douglas Brown.

Na noite deste Domingo, o programa da Rede Globo “Fantástico” dedicou um pedacinho de sua vasta lista de assuntos ao livro escrito pela norte-americana Charla Muller, “365 nights - A memoir of intimacy“.

Neste livro, Charla conta sobre o presente especial que decidiu dar ao marido no seu aniversário de 40 anos. E que presente!

Com uma década de casamento e dois filhos, sexo havia deixado de ser uma prioridade para ela. A falta de sexo os havia, apesar do dia a dia em comum, os afastado. E ela decidiu virar o jogo oferecendo a ele um ano de relações sexuais, todos os dias, sete dias por semana.

O livro não revela, ao que parece, detalhes picantes do sexo. É mais um diário de como eles tiveram de ser disciplinados para cumprir a meta do presente, mostrando os altos e baixos do casamento e como o maior contato fisíco acabou propiciando a eles maior intimidade espiritual e companheirismo.

Coincidência ou não, existe outro livro com assunto relativamente parecido e que também teve seu lançamento recentemente. “Just Do It“, de Douglas Brown, não recebeu tanta atenção assim da mídia porque é bem mais picante que o livro de Charla. Ao que parece, Brown não teve pudores de dividir com seus leitores o “do it”. No caso dele, uma empreitada de 101 dias de sexo sem parar com a esposa com a qual já é casado há 14 anos e tem duas filhas pequenas.  

A idéia foi de Annie, depois que o marido contou sobre um clube em que homens ficavam 100 dias em “jejum”. Ela propôs a ele o reverso, ficarem 101 dias “na ativa”.

Esses 101 dias incluíram aventuras em vários lugares: hotéis e motéis de tudo quanto é tipo, cadeiras, porões e, às vezes, no quarto mesmo. Lingerie, brinquedinhos e até mesmo viagra foram usados e mencionados por Brown. É interessante a perspectiva masculina da coisa. E por ele também o sexo foi mostrado como algo além do físico, que trouxe uma proximidade grande entre os dois.

Segundo ele: “O sexo é importante em um relacionamento e, se um casal deixa o sexo em segundo plano, acaba virando somente um par de pessoas que divide o mesmo quarto. E isso qualquer um pode ter, mas um grande amor só acontece uma vez. Antes do experimento, chegávamos em casa, cozinhávamos, comíamos, lavávamos a louça, púnhamos as crianças para dormir e, então, íamos para a cama, onde passávamos umas duas horas lendo ou vendo TV. Durante estes 100 dias, o tempo na cama mudou. Continuávamos muito cansados, mas levamos o sexo a sério! A gente não ia para a cama com mau hálito! Ambos tomávamos banho, a Annie vestia uma bonita lingerie, eu vestia um pijama bacana, acendíamos velas, conversávamos. Desse modo entrávamos no clima, e não nos sentíamos mais cansados. Então, era fácil fazer sexo”.

Se isso virar moda entre os brasileiros, teremos mais pessoas felizes andando nas ruas, eu aposto.

Uma mudança no conceito de Juventude

Enviado em Literatura by Priscila Armani em Julho 22nd, 2008

O Apanhador no Campo de Centeio” (”The Catcher in the Rye”) é uma das obras mais malucas que já li. Extremamente simples e, ao mesmo tempo, bastante complexo, o livro descreve alguns dias na vida do adolescente Holden Caulfield, mas os acontecimentos são tão intensos que temos a impressão de estar lendo anos e anos de sua existência.

Caulfied começa a história contando sobre sua expulsão do colégio Pencey e descrevendo seu dia-a-dia com os colegas de quarto e amigos. A linguagem extremamente informal do livro, composta por gírias e narrativa em primeira pessoa, nos deixam mais perto dele. Acompanhamos sua fuga do colégio interno às vésperas do Natal e antes que seus pais saibam que ele foi expulso. E vemos o rapaz explorar as dores e delícias da noite Nova Iorquina.

Nessa caminhada rumo ao desconhecido, o falador Caulfied nos conta absolutamente tudo sobre todos. Se hospeda num hotel e é explorado por uma prostituta e seu cafetão, encontra uma namoradinha, entra em sua casa sem que seus pais percebam e chega perto de ser vítima de abuso sexual. Ou pelo menos imagina ter chegado perto.

Se você acha que contei tudo, está redondamente enganado. Não contei nem metade. Fumando, bebendo e cheio de pensamentos que o inebriam e deprimem, o pobre Caulfied é um capeta em forma de guri. O livro é tão bem construído que chegamos a duvidar que seu autor, J.D. Salinger, não fosse adolescente quando o escreveu.

Algumas curiosidades sobre a obra:

- Mark Chapman pediu a John Lennon que autografasse uma cópia da obra e, no mesmo dia, assassinou o ex-Beatle.

- O bem-sucedido publicitário brasileiro Washington Olivetto sempre tem em sua casa dezenas de exemplares de “The Catcher in the Rye” para oferecer a amigos e conhecidos.

- O livro é considerado um marco inaugural nos estudos sobre a adolescência porque, antes dele chamar a atenção para este período da vida humana, essa fase era considerada apenas uma transição entre a infância e a fase adulta, não apresentando nenhuma importância para a sociedade. Antes do livro, os jovens não eram levados a sério.

- “O Apanhador no Campo de Centeio” é uma alusão aos versos de uma canção escrita pelo poeta Robert Burns. Caulfied é interrogado pela irmã sobre porque se “auto-destrói” daquele modo e porque não gosta de nada. Ele, angustiado, evoca a imagem criada por Burns, identificando-a como metáfora de sua aspiração: o garoto imagina um campo de centeio repleto de crianças brincando e gostaria de estar na borda do abismo apanhando as que corressem risco de cair.

-Depois de vender 15 milhões de exemplares e virar uma celebridade mundial, Salinger - notoriamente tímido e agressivamente modesto em relação a seu talento - isolou-se em uma casa no topo de uma montanha, em uma cidadezinha de mil habitantes. Depois diminuiu seu ritmo de produção (publicou seu último conto, “Hapworth 16, 1924″, em 1965, na revista The New Yorker) e cortou qualquer contato com a mídia. Não concede entrevistas, não se deixa fotografar e nunca permitiu que nenhum dos seus livros fosse adaptado para o cinema (assim como o próprio Holden Caulfield, Salinger odeia cinema). Em dezembro de 1997, o escritor, do alto de seus 78 anos, autorizou enfim o lançamento de seu quinto livro (justamente a publicação em capa dura de “Hapworth 16, 1924″), o primeiro em 34 anos.

Dorian Gray

Enviado em Cinema, Literatura by Priscila Armani em Julho 10th, 2008
Uma versão contemporânea de Dorian Gray

Uma versão contemporânea de Dorian Gray

Essa semana passou deliciosamente rápido porque gastei minhas noites lendo a bela obra-prima de Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray“. Extremamente atual, apesar de ser um livro do século XIX, este romance tornou o escritor conhecido internacionalmente, apesar dele ter sido desprezado durante muitos anos.

“O Retrato de Dorian Gray” conta a história de um inocente rapaz, Dorian, que se torna a fascinação de um pintor, Basil Hallward, que encontra nele seu ideal de beleza artística. Hallward pinta vários magníficos retratos do rapaz e seu amigo Lord Henry Wotton fica encantado com os quadros e Dorian. Assim que Henry e Dorian começam a conversar, Henry o torna ciente do quanto ele é bonito e lhe insufla idéias sobre como a vida deve ser aproveitada. Logo em seguida, Hallward pinta o melhor quadro do rapaz e a mais maravilhosa obra que faria em toda a sua vida. O adolescente expressa ardentemente seu desejo de que a obra envelheça em seu lugar e que ele possa conservar-se jovem para sempre.

O mais incrível é que, logo após Dorian tomar sua primeira atitute egoísta (influenciado por Henry), o retrato começa a sofrer as mazelas que o seu corpo sofreria. Acompanhamos a vida do rapaz e a sua “involução”, se tornando ele um homem cheio de vícios, maléfico, destruidor de almas e de vidas, com as mãos cheias de sangue por mortes que causou direta e indiretamente. E nos espantamos, assim como ele, que apesar do tempo e das suas terríveis ações o retrato envelhece, mas ele permanece belo, conquistando a todos e a si mesmo. Ele chega aos 50 anos como um Adônis, um belo Narciso que aparenta não ter mais de 20 anos. Algo de dar inveja a qualquer cirurgião plástico.  

Ao final, percebemos que entre ele e Narciso as diferenças são poucas. Ele colhe o que plantou. Mas lógico que não vou contar como. É um encerramento que considero perfeito, como poucos da literatura.

Pesquisando na internet, descobri que existe, para 2009, o projeto de um filme com a história deste livro. Posso adiantar que o filme não será superior ao livro. Porque? Por que sempre é assim, ora. Adoro a sétima arte, mas desde que o mundo é mundo não vi um filme baseado em livro que prestasse. Em 1970, tentaram filmar a história e, aparentemente, virou um bacanal. Também achei outros filmes e coisas feitas com a obra que fariam Oscar Wilde rolar no túmulo de raiva. Olha que interessante a primeira parte de um filme de 1945. Não tem absolutamente nada a ver com o livro.

Oscar Wilde era homossexual e ficou preso por dois anos acusado de abusar sexualmente de um rapaz. Talvez por causa disso, o início do livro é um pouco desencorajador, por demonstrar quase explicitamente duas paixões homossexuais, que são apenas insinuações e não se concretizam de maneira alguma. Quando digo desencorajador, falo isso para quem tem todo tipo de preferências: quem acha que vai encontrar homossexualismo, se decepciona e quem não quer encontrar precisa persistir um bom tempo lendo para perceber a real trama.

Por causa dessa abertura e das polêmicas teorias de Lord Henry Wotton, dificilmente qualquer filme será fiel à obra. Uma pena. Hollywood ainda não é corajosa o suficiente para o verdadeiro Wilde.

Os alunos brasileiros também querem inovação

Enviado em Literatura by Priscila Armani em Abril 29th, 2008

O tablóide inglês The Sun publicou nessa segunda-feira matéria anunciando que o primeiro livro da série de sucesso de JK Rowling, Harry Potter e a Pedra Filosofal, será incluído no A-Level, exame que dá aos alunos britânicos dos últimos anos do ensino médio o certificado de educação.

A partir de 2009, os adolescentes ingleses terão de escrever uma estória de 800 palavras inspirada no livro e também uma redação de 1500 palavras comparando a autora de Harry Potter a outro escritor.
 
Só a repercussão disso já demonstra o abismo cultural enorme que há entre um país de primeiro e terceiro mundo. Ninguém se preocupa com os livros que nós, brasileiros, lemos! Eu, particularmente, não tenho nada contra livro nenhum. Gosto de Harry Potter, é contemporâneo e 90% dos alunos não se incomodará em absoluto em tê-lo na grade curricular por um motivo bem simples: já o leram. Muitos tem exemplares em casa. São fãs. Sabem a história de cor.

Aqui no Brasil um autor contemporâneo que eu adoraria ver na grade curricular e que contribuiria bastante para nossa educação é Luis Fernando Veríssimo. Ele é fantástico. Fala sobre o cotidiano como ninguém. E tem até um livro de comédias para ler na escola.

Acho que precisávamos de um pouco de coragem para reformular também nossos livros. Deve ter sido complicado para os ingleses substituir Shakespeare por Rowling. Os dois são completamente diferentes. Mas gosto é algo que não se pode discutir. Eu mesma detesto Machado de Assis, acho cansativo. E o autor foi um revolucionário! Mas acho que há espaço tanto pra ele como para Veríssimo. Os educadores precisavam era criar mais coragem. Quem sabe não sejam inspirados pela decisão dos britânicos?

Dica do dia: “Comédias para se ler na escola“, de Luis Fernando Veríssimo.