Cicatrizes e deformações
“Batismo de Sangue” e “O Homem Elefante” não possuem nada em comum. Um é o oposto do outro, mas os dois são excelentes filmes. Levam à reflexão, à emoção, ao culto à vida. E sobre isso possuem muitas coisas em comum.
Começemos com o brasileiro “Batismo de Sangue”. Ele conta a história da intervenção dos padres dominicanos na Ditadura Militar. Muitos não sabem, mas estes padres estiveram envolvidos em iniciativas para dar fim ao regime. Foram torturados cruelmente. Não foram poupados por serem padres. Muito menos se contentaram em só rezar missas.
O preço disso foi bastante alto. Já no início do filme vemos Frei Tito, com 29 anos, se suicidando porque preferiu “morrer a perder a vida”. Suas cicatrizes foram todas internas. A Ditadura lhe roubou a alma. Sua tortura nunca teve fim. A partir daí vemos os outros padres passar por diferentes sofrimentos provocados pela Ditadura: Frei Betto, Frei Oswaldo, Frei Fernando e Frei Ivo. Cada um impactado de uma forma e todos chocados pelo fim “lento e gradual” da vida do amigo.
Percebemos que a Ditadura foi um período triste demais da nossa história e que, por mais que tenhamos problemas, a democracia é inúmeras vezes preferível. A nossa foi toda banhada em sangue e se hoje podemos votar é graças ao sacrifício de muitos.
Se todo mundo refletisse a respeito dessa questão, imagino que os votos seriam mais conscientes. Isso ajudaria bastante. E espero que muita gente vote mais consciente em Outubro.
Pulando da política para o imaginário fascinante de David Lynch, temos “O Homem Elefante”. Se Frei Tito foi prejudicado pelas cicatrizes internas, John Merrick foi prejudicado pela aparência monstruosa. Ele nasceu com uma série de defeitos físicos na cabeça e no corpo, que o fizeram ser sempre visto com olhos preconceituosos pela sociedade. No circo, ele é escravizado por Bytes, um homem terrível que lhe bate e trata muito mal, exibindo-o como homem elefante e lucrando em cima de sua desgraça.

Merrick tem apenas 21 anos e, apesar da aparência grotesca, lê, fala normalmente e é extremamente educado e culto. Incrível pensar que essa história foi real. Aparentemente tem a aparência que tem devido ao ataque de um elefante à sua mãe, quando estava grávida dele. O filme não esclarece se isso é verdade ou não, mas isso não tem importância. Merrick é um ser humano e não um animal. E essa reflexão nos acompanha mesmo depois do filme acabar.
Interessante também é que, ao final, há uma voz que diz: “nada morrerá”. Sim, acredito que realmente não há essa morte. Pelo menos não para esse pobre homem elefante. Foi feliz como pôde, perseguido como nunca, mas nos ensina a deixar o exterior de lado. Uma bela crítica para uma época tão fútil como a que vivemos.
Esse foi o fim-de-semana da reflexão. Esses dois dvds não dá para não assistir. Corram para a locadora mais próxima!
Em breve…
Em breve resenhas de “Batismo de Sangue” e “O Homem Elefante”. Aguardem!
O Diabo leva vantagem no Sertão
Depois de alguns dias “digerindo”, conto aqui minhas impressões sobre “Deus e o Diabo na Terra do Sol“.
Difícil acreditar que Glauber Rocha tivesse apenas 22 anos quando o fez. O filme é uma viagem muito louca. É a mais pura verdade, nua e crua. Bastante crua. E corajosa. Afinal, esta obra foi lançada em 1964, ano em que a ditadura se instalou no Brasil. E criticava a desigualdade social reinante no sertão nordestino.
Começamos acompanhando o vaqueiro Manuel, que presencia o beato Sebastião andando pelo sertão. Depois de se sentir injustiçado pelo coronel Morais, Manuel o mata e foge para Monte Santo, se tornando fiel seguidor do beato e acreditando que este trará um milagre dos céus. O milagre terá seu preço e Manuel persegue pessoas à mando de Sebastião.
A esposa de Manuel, Rosa (numa interpretação inesquecível de Yoná Magalhães), não acredita em milagres e sabe que o beato é apenas mais um explorador de seu marido. Encontramos, então, a figura de Antônio das Mortes, matador de aluguel que é convocado pelos coronéis e pela Igreja Católica a dar fim a Monte Santo.
Manuel foge mais uma vez. Acaba se encontrando com Corisco, cangaceiro do bando de Lampião. O delírio católico se junta ao delírio do cangaceiro, numa confusão onírica enlouquecedora, que termina pela realização das maiores barbaridades.
Um filme visionário como Glauber foi. Impossível sair imune dele.
Para quem não sabe: Glauber morreu em 1980, por causa de complicações bronco-pulmonares. Outra curiosidade é que o personagem Antônio das Mortes também aparece no filme “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969) e o nome desse filme no exterior é o mesmo que o do personagem.
Dica do dia: Não deixe de assistir aos extras. A entrevista com a mãe de Glauber, Lúcia Rocha, é emocionante. E não deixe de ver as entrevistas com Yoná Magalhães e Othon Bastos. Impressionante ver eles descrevendo a forma de dirigir do jovem cineasta.
Conhecendo Woody Allen
Assistir “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (”Annie Hall” no título original) foi uma experiência interessante. Conheço pouco de Woody Allen e esse é o único filme dele a integrar a lista dos 100 melhores de todos os tempos da Bravo! Alugamos ele e “Deus e o Diabo na Terra do Sol“, de Glauber Rocha. Mas esse eu vou assistir amanhã.
O filme, basicamente, conta a história de Alvy Singer (interpretado por Woody), que foi casado com duas mulheres e então conhece Annie e quer ficar com ela, mas isso não é tão fácil assim. Ele é um homem extremamente estranho, altamente complexado pelo fato de ser judeu e ter sido criado em uma família insana no Brooklyn, em Nova York. Em alguns momentos quer levar Annie à sério, mas não quer mais um casamento. Ao mesmo tempo, não quer outros relacionamentos. Fica pertubado pelo fato de que ela usa entorpecentes ao fazer sexo (há cenas de experimentação de cocaína perto dos dois e Woody recusa, ela não diz que sim nem que não e aí há uma cena hilária). Ela o chama de volta, quando acham que tudo acabou. E aí é ele que quer voltar, mas ela se recusa. Uma confusão.
Por sua interpretação, Diane Keaton ganhou o Oscar de melhor atriz. O filme também ganhou as estatuetas de melhor diretor, para Woody Allen, melhor roteiro (escrito por Allen em parceria com Brickman) e melhor filme em 1978. Woody foi indicado a melhor ator, mas não levou.
É um filme bom, engraçado, mas que nos leva a refletir. O final é, particulamente, bastante sério. E nos leva a pensar montes de coisas, especialmente quem possui relacionamento sério.
Eu recomendo e agora fiquei um pouco mais curiosa para conhecer os outros de Woody, particulamente Zelig, do qual já ouvi tantas pessoas falando bem.
Fim de semana clássico
Este foi um fim de semana como poucos. Após descobrirmos a Filme Fácil e estarmos cientes de que ela está recheada de clássicos que queremos assistir (meu namorado e eu), fizemos ficha lá e alugamos três grandes filmes. Essas dicas de DVD não posso deixar de dar a vocês. Poucos filmes que vi na minha vida se comparam a esses três.
Difíceis de achar para alugar e/ou comprar e com conclusões que dão muito o que pensar, os três integram a lista da Bravo! dos 100 melhores filmes de todos os tempos e estão entre os dez primeiros. São eles: “Crepúsculo dos Deuses“, “O Sétimo Selo” e “8 1/2“. Acho que se dizer fã de cinema sem vê-los é uma mentira deslavada.
“O Sétimo Selo” é, sem sombra de dúvidas, o mais pertubador. Assim eu o acredito pela sinceridade da história e pelo que ela nos leva a questionar. O filme começa com o retorno do cavaleiro Antonious Block para sua pátria após ter ficado 10 anos lutando nas Cruzadas Religiosas. Quando ele retorna, a “Peste Negra” assola seus compatriotas e ele se questiona sobre a existência de Deus. Ele se vê face a face com a morte e a desafia a jogar xadrez contra ele, querendo ganhar tempo para um último ato de valor. Enquanto joga, tenta proteger uma família de saltimbancos, que prossegue feliz apesar de todas as mazelas. Seu questionamento sobre Deus é impressionante e quando a própria morte lhe nega uma resposta é realmente pertubador. O filme reflete os próprios questionamentos de Bergman sobre o catolicismo. O final é, bem, não vou entregar, mas é bastante perturbador. Esse filme você não acha nem para comprar. Imaginem, então, nossa felicidade ao vê-lo na locadora.
Trailer de “O Sétimo Selo”:
“8 1/2″, de Fellini, é a típica obra-prima. Não tenho como descrevê-lo. Um dos filmes mais sinceros que já vi. Um ritmo alucinante, difícil de acompanhar. E uma narrativa apaixonante, cheia de muita vida.
Marcelo Mastroianni dá vida a Guido, um diretor de cinema indeciso e passando por uma terrível crise de meia idade. Ele deve filmar, mas não sabe o que, não se decide sobre nada, além de ser atormentado pelas lembranças da infância perdida e criar inúmeras fantasias sobre como ele gostaria que as coisas fossem. Duas sequências desse filme são super famosas: a primeira é a rumba que a Saraghina dança (essa personagem é uma mulher meio doida, que as crianças adoram, incluindo o personagem de Mastroianni) e a segunda é o harém de mulheres que Guido monta em sua imaginação, todas elas tendo passado por sua vida de um jeito ou de outro. Tem desde a sua esposa até coristas e aeromoças! Engraçado demais… e o final do filme é um tesouro a parte. Destaque para a trilha sonora de Nino Rota, considerada uma das melhores que ele já fez.
A rumba da Saraghina:
E, por fim, “Crepúsculo dos Deuses”, o filme que fez Billy Wilder ser amado e odiado por muitos. Nele vemos uma contundente crítica a Hollywood e isso já nos anos 1950, hein? Pouca gente teve tanta coragem como ele.
Nesse filme, conhecemos Norma Desmond, uma atriz de cinema mudo que foi esquecida pelas multidões depois que os diálogos passaram a ser introduzidos no cinema. Norma mora numa mansão enorme, vazia e mal cuidada que fica na Sunset Boulevard, uma das ruas mais famosas de Hollywood. Ela pede a ajuda do roteirista Joe Gillis para adaptar um roteiro que escreveu e nisso o roteirista percebe a oportunidade de se aproveitar de uma mulher mais velha e cheia de dinheiro, mas que ele não sabe ser extremamente pertubada. Quando descobre, tarde demais. E ele se deixa enredar pela atriz e pelo seu dinheiro. Já ouviu dizer que “dinheiro não traz felicidade”? Pois é.
Destaque para a tomada inicial do filme, que mostra o “ponto de vista do peixe”, com uma tomada de dentro da piscina. Detalhe: em 1950 não havia equipamento algum para se filmar embaixo d’água. Como conseguiram tla proeza então? Mistérios do cinema… Bem, os extras do DVD mostram como, mas eu é que não vou contar. Um filme essencial para percebemos que a fama não é para sempre. Ensina bastante humildade a muitas pessoas.
Trailer de “Crepúsculo dos Deuses”:
Vertigem

Atualmente, ser fã de Hitchcock é algo cult, mas não foi sempre assim. “O Mestre do Suspense”, como é mais conhecido, já foi renegado ao esquecimento durante algum tempo porque seus filmes eram avançados demais para o público. De fato, até os dias de hoje, muitas pessoas tem pesadelos depois de assistir “Psicose“. E não é à toa.
Mas “Psicose” é batido. Tive a oportunidade de assistir a um filme de Hitch que considero muito melhor. Ele se chama “Um corpo que cai” (Vertigo). Inteligente, envolvente, surpreendente e sangrento na medida certa (essa dose Hitch é um dos poucos que consegue medir), o filme é de levantar do sofá. Foi o que quase fiz, quando ele estava chegando em seu final. Difícil, nos dias de hoje, você assistir a um filme que te dê vontade de levantar, de tão fortes são as emoções. E esse aí é deles.
Devo confessar que conheço pouco de Hitchcock porque nas aulas de cinema da faculdade só estudamos o famigerado “Psicose”. Fizemos decoupagem da cena do chuveiro. E só, basicamente. Muito papo, pouco filme. Mas, justiça seja feita, a faculdade é o que fazemos dela e não o que ela faz de nós.
Sobre “Vertigo”, o enredo é basicamente o seguinte: o detetive John ‘Scottie’ Ferguson se afasta da Polícia depois de descobrir que sofre de vertigem, ou seja, não consegue ir em locais altos sem se sentir tonto ou passar mal. Essa descoberta foi feita em momento inapropriado porque graças a esse mal-estar um colega de John morre. Ele, então, não sabe a que vai dedicar seu tempo livre, mas um antigo amigo, Gavin Elster, aparece pedindo a ele que vigie sua mulher, Madeleine Elster. A esposa, interpretada por Kim Novak, possui uma obsessão por uma antepassada sua e toma atitudes estranhas estando supostamente possuída pela bisavó.
O enredo vai ficando complicado a medida que vai se desenvolvendo e Madeleine acaba se envolvendo com Scottie. O drama se intensifica e, como sempre, o bom Hitch nos surpreende com um golpe no estômago. Mal piscamos e o filme se transforma, muda o enredo, muda tudo e, ao mesmo tempo, o final não nos surpreende. E aí está a genialidade. O que importa é o caminho da narrativa e não sua conclusão.
Dar mais detalhes só estragaria seu prazer em assistí-lo, então, só adianto que é um típico Hitchcock. Bastante tensão é garantida.
Trailer:
Dica do dia: Acesse um dos muitos sites sobre o mestre do suspense. Esse é um site bem bacana, com muita informação boa. Mas saber um pouquinho de inglês é essencial.
Um século à frente

Difícil esquecer um filme como “Metrópolis“, de Fritz Lang. Até porque é difícil sequer achá-lo em uma locadora. Eu e meu parceiro não achamos em lugar nenhum. Tivemos de comprá-lo.
Depois da saga para comprá-lo (também não foi fácil achá-lo à venda), finalmente assistimos. Esqueça tudo o que você conhece de cinema contemporâneo. “Metrópolis” derruba facilmente qualquer conceito que você conheça.
Primeiro, porque foi uma das mais ousadas empreitadas cinematográficas do século XX. Filmado em 1927, “Metrópolis” retrata uma cidade futurista, sendo o primeiro filme de ficção científica da história! Enxergando um século à frente, Lang fez um filme mudo e em preto e branco que coloca no chinelo muita produção hollywoodiana cheia de cores e efeitos especiais.
Metrópolis é dividida entre dois povos: a classe trabalhadora, que não possui direito a cultura ou descanso, e a classe rica, que desfruta dos prazeres e mora “na superfície”, por cima das máquinas e da massa de trabalhadores submissa que as controla. Jon Fredersen foi o criador e idealizador da cidade, mas seu filho, Freder, fica perturbado quando se confronta com a realidade triste da classe trabalhadora. Em busca de conhecê-los melhor, Freder se mete em muitas confusões e troca de lugar com o trabalhador 11811. Na cidade subterrânea, conhece Maria, uma doce jovem que ensina aos operários a importância de se buscar um mediador que equilibre a situação entre os dois povos.
Freder e Maria, claro, se apaixonam, mas ela é sequestrada por Rotwang, um inventor maluco que cria uma máquina andróide (o primeiro robô do cinema!) e faz com que esta tenha as mesmas feições e corpo de Maria. Fredersen quer que o andróide semeie a discórdia entre os trabalhadores, para ter uma desculpa para atacá-los. Mas Rotwang usa o andróide para incitar os trabalhadores a se revoltar, porque odeia Jon Fredersen (ele roubou sua mulher amada, Hel) e quer o fim da cidade. Daí em diante o caos impera e não conseguimos mais desgrudar os olhos da TV.
Com atuações dignas de Oscars e Globos de Ouro (ambas premiações ainda não existiam na época), o filme alemão é marcante, emocionante, um drama bom em qualquer época, cujos problemas da restauração não o impedem de ser, simplesmente, uma verdadeira obra-prima. A lição que ele nos passa é, até hoje, muito difícil de ser absorvida por inúmeras pessoas. “Não pode haver entendimento entre as mãos e o cérebro se o coração não agir como mediador”. E até os dias de hoje podemos contar nos dedos os poucos mediadores que tivemos. Uma pena.
Curiosidade: Este era um dos filmes preferidos de Adolf Hitler. Não deixa de ser engraçado isso. Hitler tinha coração? Onde?
Aí vai um pedacinho da transformação de Hel (a andróide inspirada na esposa de Fredersen) em Maria:
Dica do dia: Saiba mais sobre o grande trabalho de restauração por detrás desse DVD contemporâneo de “Metropólis” e entenda como os interesses comerciais acabaram por destruir o filme original.
O adorável vadio e um sindicato de ladrões

Marlon Brando é, sem sombra de dúvidas, o ator mais talentoso da história do cinema. E quando você assiste “On the Waterfront” (Sindicato de Ladrões, em português), qualquer dúvida nesse sentido se dissipa imediatamente. Se tem alguém que nasceu para ser ator, que a câmera ama, que nos faz ficar grudados na tela à expectativa de cada cena, esse alguém é Brando. Excepcionalmente talentoso, lindo e um gênio de gênio difícil. Apaixonante ao extremo.
“On the waterfront”, ganhador de oito Oscars, conta a história de Terry Malloy (Brando), um ex-boxeador frustrado por ter perdido a oportunidade de sua vida de ser um grande lutador. O filme se inicia com a contribuição involuntária deste para a morte de seu amigo Jimmy Doyle e o quanto isso pesa em sua consciência. Ele trabalha para Johnny Friendly, diretor do sindicato dos trabalhadores portuários local, que chantageia e cobra taxas ilegais de seus afiliados. É pagar ou ficar sem trabalhar. E, por consequência, Johnny é o manda-chuva do pedaço.
Mas a partir da morte de Jimmy, as coisas começam a mudar. Percebemos a evolução da consciência de Brando e como o cerco vai se fechando para ele. O amor, a corrupção, a religião, tudo isso invade a cabeça do personagem ao mesmo tempo e ele se vê confuso, tendo de tomar uma decisão muito difícil. Ele tem muito a perder. Mas também muito a ganhar. Seu romance com Edie Doyle (Eva Marie Saint), irmã do amigo falecido, é bonito, delicado e muito forte. Um clássico amor de cinema como não se vê mais.
Dirigido por Elia Kazan, diretor também conhecido pelos clássicos “Viva Zapata!” e “America, America”, o filme foi sempre considerado um pouco auto-biográfico visto que Elia, assim como o personagem Terry Malloy, também enfrentou a difícil situação de ter de denunciar seus amigos. No caso do diretor, entregou Charles Chaplin e outros comunistas da indústria cinematográfica ao governo norte-americano.
A cena da foto é a melhor do filme, na qual Brando conversa com Rod Steiger, seu irmão Charlie. Ele diz: “Eu poderia ter tido classe. Ao invés de ser um vadio. Que, convenhamos, é o que sou”. Pobre Brando, ficaram o filme inteiro o chamando de vadio, mas se tem alguém que trabalhou foi ele. E como trabalhou.
Assista ao trailler de “On the Waterfront”:
Questionamento da loucura
Sabe aquele papo de “eu não posso morrer antes de…” que as pessoas tem mania de falar? Tipo, eu não posso morrer antes de pular de pára-quedas ou toda essa baboseira? Pois bem, meu caro. Eu te digo, com certeza: você não pode morrer, de jeito nenhum, sem assistir “Um estranho no ninho“.
Porque? Vou te explicar porque. Por um motivo simples: este é, até os dias de hoje, um dos melhores filmes de todos os tempos! É um drama intenso, visceral, que explode com todos os conceitos da psiquiatria da década de 70! Se você não toma cuidado, explode seus neurônios! Caramba, isso não é um filme, é um trator.
Jack Nicholson é, simplesmente, fenomenal, numa das atuações mais brilhantes da história do cinema. Dois Oscars pra ele é pouco demais! Como é que aquele Curinga que ele fez não ganhou o Oscar? Me ajuda aí! Não foi por nada que o American Film Institute lhe concedeu, em 1994, o prêmio pelo conjunto da obra de sua vida. A Academia comete seus erros. E quem assiste esse filme concorda que três Oscars pra esse cara não é nada!
Você sabia que Nicholson recusou o papel de Michael Corleone no primeiro The Godfather? E que Bob Kane, criador do Batman, o recomendou pessoalmente para interpretar o Curinga em 1989? Leia a biografia da vida desse cara. Sério. Ainda vai virar filme!
Bem, para quem não sabe, “Um estranho no ninho” (One Flew Over the Cuckoo’s Nest, no original) conta a história de Randle Patrick McMurphy, prisioneiro que banca o louco para sair da prisão direto para o manicômio. Mas, quando ele chega lá, percebe que as coisas não são nada fáceis e que sua idéia não foi tão boa assim. Incrivelmente, ele se comunica de maneira excelente com os pacientes e eles estabelecem uma ligação maravilhosa. É triste, triste demais finalmente perceber, com esse filme, como o movimento de luta antimanicomial tem razão. É de cortar o coração as formas de tratamento que os portadores de sofrimento mental recebem. E o pior: perceber que o desajustado McMurphy é a pessoa mais humana do manicômio. É ele quem mais pensa no bem-estar dos pacientes.
Para mim, o ápice da obra é quando Nicholson concretiza a vontade presa na garganta de todos os espectadores e avança sobre a maldita enfermeira para matá-la (interpretada por Louise Fletcher). Todo mundo fica torcendo pra ele conseguir. E olha que eu tenho três amigas enfermeiras! Mas essa é pior que vilã de novela das oito.
Curiosidades:
- O filme foi todo rodado dentro de um hospital de verdade, com alguns pacientes com problemas mentais de verdade. A equipe toda praticamente morou no hospital durante a filmagem, com alguns deles tendo se relacionado com portadores de sofrimento mental para conhecer melhor o seu mundo. E as sessões de terapia em grupo representam quase todas as melhores seqüências do filme. Várias tomadas dessas terapias foram feitas com os atores nunca (eu disse nunca) sabendo que estavam sendo filmados.
- A cena da pescaria foi filmada e incluída na montagem final só depois de Michael Douglas, Saul Zaentz e todo elenco insistir muito com o diretor Milos Forman. Muitas das caras de nojo que os atores faziam eram verídicas: estavam todos com enjôo no barco, menos Nicholson. E essa cena é a única do filme que não foi filmada na sequência prevista no roteiro. O filme inteiro foi filmado na ordem em que foi montado.
- Esse filme demorou 13 anos para se concretizar graças à burocracia da Tchecoslováquia e tantos outros empecilhos. Foi uma saga enorme. Não caberia aqui. Saiba mais.
- O filme foi a estréia no cinema de três grandes atores. Brad Dourif (que fez “O Veludo Azul”, “Alien: a ressureição”, a voz do “Chucky” e ”O Senhor dos Anéis: As Duas Torres” e “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” - nesses dois últimos está irreconhecível), Christopher Lloyd (o popular professor do clássico dos anos 80 “De volta para o futuro”) e Danny De Vito ( o Pinguim de “Batman - O Retorno”, estava em “O nome do jogo” e já fez outros inúmeros filmes comédia-pastelão). O que eu não sabia é que foi a produtora de De Vito que tornou possível, nada mais, nada menos que “Pulp Ficcion”.
Enfim, se tudo isso não te convenceu, vá pular de pára-quedas. Mas lembre-se, se o Padre dos balões de festa não se salvou, o que vai ser de você hein?


