Priscila Armani - Jornalista

Dorian Gray

Enviado em Cinema, Literatura by Priscila Armani em Julho 10th, 2008
Uma versão contemporânea de Dorian Gray

Uma versão contemporânea de Dorian Gray

Essa semana passou deliciosamente rápido porque gastei minhas noites lendo a bela obra-prima de Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray“. Extremamente atual, apesar de ser um livro do século XIX, este romance tornou o escritor conhecido internacionalmente, apesar dele ter sido desprezado durante muitos anos.

“O Retrato de Dorian Gray” conta a história de um inocente rapaz, Dorian, que se torna a fascinação de um pintor, Basil Hallward, que encontra nele seu ideal de beleza artística. Hallward pinta vários magníficos retratos do rapaz e seu amigo Lord Henry Wotton fica encantado com os quadros e Dorian. Assim que Henry e Dorian começam a conversar, Henry o torna ciente do quanto ele é bonito e lhe insufla idéias sobre como a vida deve ser aproveitada. Logo em seguida, Hallward pinta o melhor quadro do rapaz e a mais maravilhosa obra que faria em toda a sua vida. O adolescente expressa ardentemente seu desejo de que a obra envelheça em seu lugar e que ele possa conservar-se jovem para sempre.

O mais incrível é que, logo após Dorian tomar sua primeira atitute egoísta (influenciado por Henry), o retrato começa a sofrer as mazelas que o seu corpo sofreria. Acompanhamos a vida do rapaz e a sua “involução”, se tornando ele um homem cheio de vícios, maléfico, destruidor de almas e de vidas, com as mãos cheias de sangue por mortes que causou direta e indiretamente. E nos espantamos, assim como ele, que apesar do tempo e das suas terríveis ações o retrato envelhece, mas ele permanece belo, conquistando a todos e a si mesmo. Ele chega aos 50 anos como um Adônis, um belo Narciso que aparenta não ter mais de 20 anos. Algo de dar inveja a qualquer cirurgião plástico.  

Ao final, percebemos que entre ele e Narciso as diferenças são poucas. Ele colhe o que plantou. Mas lógico que não vou contar como. É um encerramento que considero perfeito, como poucos da literatura.

Pesquisando na internet, descobri que existe, para 2009, o projeto de um filme com a história deste livro. Posso adiantar que o filme não será superior ao livro. Porque? Por que sempre é assim, ora. Adoro a sétima arte, mas desde que o mundo é mundo não vi um filme baseado em livro que prestasse. Em 1970, tentaram filmar a história e, aparentemente, virou um bacanal. Também achei outros filmes e coisas feitas com a obra que fariam Oscar Wilde rolar no túmulo de raiva. Olha que interessante a primeira parte de um filme de 1945. Não tem absolutamente nada a ver com o livro.

Oscar Wilde era homossexual e ficou preso por dois anos acusado de abusar sexualmente de um rapaz. Talvez por causa disso, o início do livro é um pouco desencorajador, por demonstrar quase explicitamente duas paixões homossexuais, que são apenas insinuações e não se concretizam de maneira alguma. Quando digo desencorajador, falo isso para quem tem todo tipo de preferências: quem acha que vai encontrar homossexualismo, se decepciona e quem não quer encontrar precisa persistir um bom tempo lendo para perceber a real trama.

Por causa dessa abertura e das polêmicas teorias de Lord Henry Wotton, dificilmente qualquer filme será fiel à obra. Uma pena. Hollywood ainda não é corajosa o suficiente para o verdadeiro Wilde.

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